quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
Capoeira: legado afro-brasileiro para a humanidade
Jogo, luta ou dança? Esta é umas das indagações, sem resposta conclusiva, que diz algo acerca do caráter multifacetado e plural da capoeira. Diferentes explicações se dão sobre sua origem. De acordo com uns, ela seria originária do Ngolo, mítico ritual africano de iniciação entre povos bantu da região onde hoje se situa o país de Angola. Segundo outra versão, ela teria sido criada nas senzalas, como uma necessidade de camuflar uma luta em dança. A versão mais aceita hoje é que diferentes povos africanos sincretizaram seus saberes, mesclando danças e lutas e estabelecendo aqui no Brasil este formato ritual afro-brasileiro.
Embora haja registros sobre capoeira no século XVII, é durante o século XIX que efetivamente a capoeira marca presença em território nacional. Há diversos registros de sua práticas em capitais portuárias como Salvador, Rio de Janeiro, Recife, São Luís e Belém. A escravidão e o alto grau de exclusão social impostos à população afro-brasileira levou à organização dos capoeiristas em bandos ou maltas. A imprensa carioca da época cunha o termo “Partido Capoeira”, para simbolizar o grau de organização política alcançado pelas maltas, que interviam diretamente no processo eleitoral, desmantelando comícios e atacando adversários políticos. O primeiro Código Penal da República, em 1980, criminaliza a capoeira, o batuque e a vadiagem, como uma forma de controle social da população negra, considerada pelas elites como uma “classe perigosa”. Muitos capoeiristas deste período são presos e desterrados em Fernando de Noronha.
Com a repressão policial, a prática vai perdendo sua força pelo Brasil, e se mantém preservada na Bahia, onde no início do século XX assume as características pelas quais é conhecida em todo mundo: o ritual da roda de capoeira, conduzida pela musicalidade do berimbau e demais instrumentos, com cantigas. Embora Rio de Janeiro e Recife tentem disputar sua origem, a capoeira que se espalhou pelo Brasil e pelo mundo é inegavelmente baiana.
Nestes tempos, em que os capoeiras baianos eram temidos pela polícia e conhecidos como valentões (Besouro Mangangá, Pedro Mineiro, Inocêncio Sete Mortes...), a capoeira ainda não era ensinada em academias. Seu aprendizado se dava por oitiva, observação, durante a própria roda.
Na década de 1930, com o objetivo de modernizar a capoeira e torná-la mais eficiente, Mestre Bimba cria a luta regional baiana, posteriormente conhecida como capoeira regional. Em 1937 se apresenta para o interventor Juracy Magalhães e consegue licença para funcionamento de sua academia. A capoeira tradicional baiana passa a ser conhecida como capoeira angola, e na década de 1940 os antigos mestres que se reuniam no Gengibirra (Aberrê, Totonho de Maré, Noronha, Livino Diogo, Bilusca, Amorzinho, entre outros) se reúnem para criar uma escola de capoeira angola, iniciativa que será conduzida por Mestre Pastinha, que passa a liderar o processo de resistência da capoeiragem tradicional.
A partir da década de 1960 os capoeiristas baianos criam shows folclóricos que terão forte impacto sobre a dinâmica e a estética da capoeira, introduzindo saltos e acrobacias oriundos do circo e da ginástica olímpica. Na década de 1970, o processo de esportivização, liderado pelo sudeste, cria modelos de graduação (com cordas, cordões ou cordéis) que são adotados por quase toda a capoeira baiana. Também neste período, a capoeira baiana começa a se espalhar pelo mundo, começando pelos EUA e Europa e chegando hoje aos mais distantes e recônditos lugares.
Hoje, a capoeira baiana permanece como referência para todo o mundo, e o Centro Histórico concentra algumas das academias mais tradicionais de vários estilos: angola, regional, contemporânea, de rua... Patrimônio imaterial brasileiro, a capoeira é uma das grandes contribuições brasileiras para o mundo, provando que a astúcia pode vencer a força, que tudo na vida tem seu tempo e que a ginga e a mandinga podem nos ajudar a enfrentar os mais difíceis desafios do dia a dia.
Texto: Paulo Magalhães
Texto: Paulo Magalhães
Assinar:
Postagens (Atom)

















